A Psicanálise é Elitista? Freud explica? Será que faz sentido?

Por que o "Projeto Ponto de Escuta" não é caridade, mas a retomada do projeto político original de Freud. "Psicanálise é coisa de rico". "Anos de divã caríssimo". "Longe da realidade do povo".

Por Paulo César Ferreira de Oliveira - é sociólogo, especialista em gestão pública, psicanalista e colaborador do ICOOPS.

No Projeto Ponto de Escuta do ICOOPS, ouvimos isso o tempo todo. Ao oferecermos um espaço de escuta psicanalítica gratuita, muitos assumem que estamos fazendo "caridade" ou, talvez, uma "psicanálise mais fraca", longe do "ouro puro" dos consultórios particulares.

Mas e se eu lhe dissesse que quem pensa assim está contradizendo o próprio Sigmund Freud? Um estudo aprofundado sobre a história do movimento psicanalítico — como a pesquisa que resultou no TCC "As policlínicas de Freud: Um Estudo da Dimensão Social da Psicanálise" — revela um fato explosivo: a psicanálise, em sua origem, foi pensada como uma ferramenta de saúde pública. O projeto social não é um anexo moderno; é a fundação ética da psicanálise.

O trauma de Guerra e a resposta de Freud

O momento da virada foi a Primeira Guerra Mundial. Assim como vivemos hoje um trauma coletivo pós-pandêmico, a Europa de 1918 estava psiquicamente devastada. O continente estava em ruínas, a morte havia sido banalizada e a "neurose de guerra" (o que hoje chamamos de estresse pós-traumático) era uma epidemia.

O sofrimento psíquico havia deixado de ser um luxo da burguesia vienense; era uma crise de massa. Freud, vendo esse "mal-estar na civilização", foi interpelado eticamente. Sua resposta foi um dos discursos mais radicais (e menos comentados) de sua carreira, no Congresso de Budapeste, em 1918.

Nesse discurso, Freud lança a semente das Policlínicas Psicanalíticas. E ele o faz com um argumento-bomba: ele equipara a neurose à tuberculose. Ao fazer isso, ele retira a neurose do campo moral e a coloca no campo da saúde pública. Se a neurose é um problema de saúde pública como a tuberculose, seu tratamento não pode depender da capacidade financeira do paciente. Em seu ensaio de 1919, ele crava a frase que deveria ser o lema de toda clínica social:

"Um dia a consciência da sociedade despertará e se lembrará de que o pobre tem exatamente tanto direito a uma ajuda para a sua mente quanto o tem agora à ajuda cirúrgica que lhe salva a vida."

O "Ouro" e o "Cobre": Adaptar sem baratear

Freud não era ingênuo. Ele sabia que um tratamento intensivo e individual seria difícil de aplicar em massa. Ele antecipou as críticas de que isso "vulgarizaria" o método. É dele a famosa metáfora de que, para a clínica pública, seria preciso "fundir o puro ouro da análise com o cobre da sugestão".

É crucial entender: ele não propõe jogar o ouro fora e usar só o cobre. Ele propõe criar uma liga metálica — um novo material, forte, resistente, capaz de suportar as condições adversas do atendimento social (a urgência, a falta de recursos, a miséria material), sem jamais abdicar do rigor ético da escuta. Isso não é "psicanálise light". É psicanálise aplicada à realidade.

A história que (quase) apagaram

E as policlínicas não foram só um sonho. Elas existiram. A Policlínica de Berlim (criada em 1920) e o Ambulatório de Viena (1922) atenderam centenas de pacientes — operários, professores, artistas, desempregados — gratuitamente ou a custos simbólicos. Foram laboratórios de inovação, onde nomes como Melanie Klein e Wilhelm Reich atuaram.

Se o projeto era tão freudiano, por que ele desapareceu? A resposta é política: o nazifascismo. A psicanálise foi perseguida e banida pelo regime nazista por ser uma "ciência judaica". As clínicas, com seu viés progressista e social, foram fechadas, seus membros (muitos judeus e de esquerda) foram mortos ou forçados ao exílio.

A ideia de uma "psicanálise elitista" não é o projeto de Freud; é, em grande parte, o resultado da vitória da barbárie nazista, que destruiu seu projeto social na Europa, forçando a psicanálise a se reconfigurar como uma prática de consultório privado nos EUA e em outros lugares.

O ponto de escuta é a retomada

O "mal-estar" de Freud hoje mudou de nome, mas não de estrutura. A desigualdade profunda, o racismo, a violência urbana e a precarização da vida são o nosso trauma coletivo.

O TCC que baseia este artigo analisa o caso de 'Naianda', 39 anos, moradora da periferia de São Paulo, que só pôde realizar seu "desejo antigo" de análise em uma clínica social. Seu sofrimento — que se expressa no corpo (dores, compulsão), na vida profissional (desemprego) e no simbólico (a relação com a lei de um pai "moralista, mas imoral") — é exatamente o sofrimento complexo que Freud insistia que a psicanálise tinha o dever de escutar.

É por isso que o Projeto Ponto de Escuta do ICOOPS existe. Não estamos fazendo caridade. Estamos retomando um projeto político. Estamos atendendo ao chamado ético original de Freud: o de que a escuta psicanalítica não é um privilégio de classe, mas um direito fundamental.