"Chuta que é macumba!": Como a linguagem "inofensiva" arma a mão de quem ataca um terreiro.

Por Paulo César Ferreira de Oliveira - é sociólogo, especialista em gestão pública, psicanalista e colaborador do ICOOPS.

No Eixo Raízes Protegidas do ICOOPS, atuamos na linha de frente: auxiliamos na denúncia de abusos, buscamos a responsabilização por agressões e combatemos o desrespeito explícito contra religiões de matriz africana e indígena. Lidamos com o resultado da violência: a pedra atirada no congá, o fogo no barracão, a humilhação pública.
Mas essa violência física, a que combatemos com a lei, não nasce do nada. Ela é o último estágio de um processo que começa muito antes.
Ela começa na linguagem. Recentemente, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) publicou um manual essencial: "Expressões racistas: por que evitá-las". O documento é um lembrete contundente de que o racismo estrutural se esconde no piloto automático da nossa fala. E é exatamente nessa fala "cotidiana" que o racismo religioso é normalizado e, pior, incentivado.

A palavra que normaliza a agressão
Duas expressões listadas pelo TSE são a prova cabal de como a linguagem é a antessala da violência física que o Raízes Protegidas combate:

  1. "Chuta que é macumba!"

  2. "Volta pro mar, oferenda!"

Quando alguém usa a expressão "chuta que é macumba!" para se livrar de algo ruim, essa pessoa está, literalmente, validando uma agressão. Como o próprio TSE aponta, a expressão nasceu no século XIX, incitando populares a pontapearem oferendas rituais.
A "piada" não é inofensiva. Ela é a autorização social que legitima o ato de chutar um alguidar, de violar um espaço sagrado. A mão que hoje atira uma pedra em um terreiro foi, primeiro, "armada" pela boca que repetiu essa frase como algo normal.
Da mesma forma, "Volta pro mar, oferenda!", usada para afastar alguém indesejado, cumpre a mesma função: associa a prática religiosa (a oferenda a Iemanjá) a algo repulsivo. Ela desumaniza a fé e, por extensão, o praticante.

O mesmo sistema que odeia a cor, odeia a crença
O manual do TSE é claro ao mostrar que o desprezo pela fé afro-religiosa vem do mesmo lugar que o desprezo pela pele negra. O racismo religioso é racismo.
Quando a sociedade normaliza expressões como:

  • "A coisa tá preta" (para algo que deu errado);

  • "Denegrir" (como sinônimo de manchar ou difamar);

  • "Cabelo ruim" (para demonizar traços negros);

  • "Cor de pele" (para se referir ao bege, como se a pele branca fosse o padrão universal);

...ela está reforçando um sistema onde tudo que é associado ao "preto" é negativo, sujo ou inferior.
Nesse sistema, se "preto" é ruim, a religião de matriz africana também será. Não é coincidência. É projeto. O mesmo racismo que usa "boçal" (termo para escravizados que não falavam português) como xingamento, é o que usa "macumbeiro" de forma pejorativa.

A luta começa na boca
No Eixo Raízes Protegidas, continuaremos na linha de frente jurídica, oferecendo suporte para denúncias e buscando a responsabilização criminal por atos de violência. Mas essa luta será incompleta se não combatermos a origem. A violência não começa na pedra; começa na palavra.
A luta contra o racismo religioso exige mais do que apenas defender o Estado Laico na Constituição; exige defender a laicidade no nosso vocabulário. A desconstrução do racismo é um trabalho diário, e ele começa por uma escolha consciente de quais palavras usamos para descrever o mundo.
Afinal, se a "coisa está complicada", diga que está complicada. Se você quer distância de algo, diga "para longe de mim!". Mas pare de "chutar a macumba". Quando você faz isso na linguagem, você autoriza que alguém o faça com os pés.