Do encouraçamento à escuta: Por que a repressão gera violência?
Por Paulo César Ferreira de Oliveira – é sociólogo, especialista em gestão pública, psicanalista e colaborador voluntário do ICOOPS


No dia a dia do Projeto Ponto de Escuta do ICOOPS, acolhemos o sofrimento psíquico em suas mais diversas formas. Muitas vezes, esse sofrimento não surge do nada; ele é o resultado direto de violências, opressões e conflitos que marcam a vida. Lidamos com as consequências da violência doméstica, da transfobia, do racismo e da angústia gerada pela falta de lugar no mundo.
Mas de onde vem o ódio que alimenta essa violência? Por que, como sociedade, parecemos repetir ciclos de destruição?
O psicanalista Wilhelm Reich, em sua obra "O Assassinato de Cristo" (1952), oferece uma tese radical e poderosa. Para ele, a tragédia de Jesus não é um evento histórico isolado, mas um símbolo atemporal da condição humana. A morte de Cristo, segundo Reich, é a consequência lógica do que ele chamou de "peste emocional".
O Homem Encouraçado e a Inveja da Vida
Reich descreve a "peste emocional" como o estado de caráter do "homem encouraçado". Este é o indivíduo que, desde muito cedo, aprende a reprimir seus impulsos vitais e naturais — em especial, sua energia sexual.
Para evitar a dor, a punição ou a vergonha imposta pela sociedade, a pessoa constrói uma "couraça" muscular e psicológica. O corpo se enrijece, a energia vital (que Reich chamava de orgone) fica bloqueada, e a capacidade de sentir prazer genuíno e amor é perdida.
O problema é que essa energia bloqueada não desaparece. Ela se transforma.
O indivíduo encouraçado, frustrado e incapaz de acessar a própria felicidade natural, desenvolve uma inveja profunda e um ódio mortal por qualquer um que represente a vida livre. Cristo, em sua pureza e defesa do amor, torna-se a personificação dessa liberdade que o reprimido não suporta.
O Assassinato Crônico: A Violência como Mecanismo Social
Para Reich, o assassinato de Cristo não foi um evento único. É um "assassinato crônico" que se repete todos os dias. Ele acontece toda vez que a sociedade, seja por ação direta ou por passividade, permite que a injustiça ocorra. O ódio nascido da frustração, diz Reich, é incomparável e é sempre direcionado ao "doador" – aquele que oferece o amor, a vitalidade e a liberdade que o encouraçado não consegue acessar.
É a tragédia que vemos no agressor que ataca a mulher que o rejeita; é o mecanismo do transfóbico que odeia a liberdade de gênero que ele não compreende; é o "assassinato jurídico" que se disfarça de justiça para punir quem ousa ser diferente. O torturador e o agressor são, para Reich, executores dessa vontade pública de esmagar o que é livre.
O Ponto de Escuta como Resistência
O que tudo isso tem a ver com o nosso trabalho no ICOOPS? A "peste emocional" prospera no silêncio, na repressão, na armadura. Ela se alimenta do não-dito. O Projeto Ponto de Escuta nasce como um espaço de resistência direta a essa lógica.
A psicanálise, em sua essência, oferece uma escuta qualificada. Ela é um convite para que essa "couraça" possa ser, pouco a pouco, investigada e afrouxada. Não é um caminho fácil, pois exige a coragem de confrontar as próprias dores e repressões.
Reich afirmava que "o amor está nos corpos, e não em um espelho". O trabalho analítico é justamente ajudar o sujeito a se reconectar com seu próprio corpo e sua própria verdade, para além da armadura que a vida lhe impôs.
Compreender a "peste emocional" não é justificar a violência, mas sim entender seu mecanismo devastador. É um convite para olharmos para nossas próprias repressões e para as estruturas sociais que as perpetuam.
O antídoto para a "peste" é a coragem de viver a própria vida e a generosidade de permitir que os outros vivam as suas. No Ponto de Escuta, oferecemos um espaço para que essa coragem possa começar a ser construída.
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