O ECA em 48 Partes: Conhecemos a lei que nos guia ou só decoramos artigos?
Uma provocação do Eixo Aquarela: a Proteção Integral exige mais do que "saber o básico".
Por Paulo César Ferreira de Oliveira, é sociólogo, especialista em gestão pública, psicanalista e colaborador voluntário do ICOOPS.


O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA - Lei 8.069/90) é a espinha dorsal de todo o trabalho do Eixo Aquarela do ICOOPS. Frequentemente, citamos seus artigos sobre Direitos Fundamentais – Vida, Saúde, Educação, Liberdade, Respeito, Dignidade, Convivência Familiar (Arts. 7º a 69º). Celebramos a criação do Conselho Tutelar (Arts. 131º a 140º). Falamos das Medidas de Proteção (Arts. 98º a 102º).
Mas será que paramos para pensar na imensidão e na complexidade dessa lei?
Uma análise rápida de sua estrutura revela um universo:
Não são só direitos: O ECA detalha a Prevenção (Arts. 70º a 85º), a Política de Atendimento (Arts. 86º a 97º), as Medidas Socioeducativas (Arts. 112º a 128º), as Medidas aos Pais (Arts. 129º e 130º).
Não é só o Conselho Tutelar: O ECA estrutura o Acesso à Justiça (Arts. 141º a 151º), define os Procedimentos (Arts. 152º a 197º-E), detalha o papel do Ministério Público (Arts. 200º a 205º) e do Advogado (Arts. 206º e 207º).
Não é só proteção, é responsabilização: O ECA tipifica Crimes (Arts. 228º a 244º-B) e Infrações Administrativas (Arts. 245º a 258º-C) contra crianças e adolescentes.
A lei vai da colocação em Família Substituta (Guarda, Tutela, Adoção - Arts. 28º a 52º-D) à apuração de ato infracional (Arts. 171º a 190º), passando pela fiscalização de entidades (Arts. 95º a 97º) e pela proteção judicial de interesses difusos e coletivos (Arts. 208º a 224º). São 48 grandes blocos temáticos distribuídos em 267 artigos!
A provocação: dominamos o mapa ou andamos perdidos?
Diante dessa arquitetura legal complexa e interligada, a provocação que o Eixo Aquarela lança para toda a Rede de Garantia de Direitos (Conselheiros Tutelares, gestores, técnicos do SUAS, Saúde, Educação, Justiça) é incômoda:
Nós realmente conhecemos o ECA em sua totalidade, ou apenas decoramos os artigos que usamos no dia a dia?
Será que estamos navegando com segurança por todo esse território legal, ou nos perdemos em alguns poucos "bairros" conhecidos, ignorando vastas áreas que são cruciais para a Proteção Integral?
Um Conselheiro Tutelar pode zelar efetivamente pelos direitos se não domina os procedimentos de apuração de ato infracional ou as nuances da perda do poder familiar?
Um técnico do CRAS/CREAS pode garantir a convivência familiar se desconhece as medidas aplicáveis aos pais ou o fluxo para acionar o Ministério Público?
Um gestor público pode formular políticas eficazes se ignora as infrações administrativas que a própria gestão pode cometer por omissão?
Proteção Integral exige conhecimento integral
A "Proteção Integral" não é um slogan bonito; é um sistema complexo que só funciona se todas as suas engrenagens (direitos, prevenção, atendimento, medidas, justiça, responsabilização) estiverem azeitadas e forem conhecidas por quem as opera.
Focar apenas nos "direitos fundamentais" sem dominar os mecanismos para garanti-los e responsabilizar quem os viola é como ter um mapa do tesouro, mas não saber usar a bússola ou a pá.
O ECA, com seus 267 artigos e 48 blocos temáticos, não é um obstáculo burocrático. É a ferramenta completa que temos para construir um Brasil que, de fato, coloque suas crianças e adolescentes em primeiro lugar.
O desafio lançado pelo Eixo Aquarela é um convite à humildade e ao estudo contínuo: vamos parar de tratar o ECA como um "resumo de direitos" e começar a dominá-lo como o sistema complexo e poderoso que ele é. A Proteção Integral depende disso.
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