Quem cuida dos conselhos tutelares de São Paulo? Uma pesquisa de 2022 quebra mitos e revela urgências
Por Paulo César Ferreira de Oliveira - é sociólogo, especialista em gestão pública, psicanalista e colaborador do ICOOPS.


No imaginário coletivo, quem é a conselheira ou conselheiro tutelar de São Paulo? Muitas vezes, prevalecem estereótipos: uma pessoa com baixa escolaridade, talvez desmotivada, atuando em um trabalho burocrático e exaustivo.
Mas será que essa imagem corresponde à realidade?
Em 2022, o ICOOPS, em cooperação com a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC) para o 10º Festival de Direitos Humanos, realizou a pesquisa "QVTdoCT – Qualidade de Vida no Trabalho dos Conselhos Tutelares de São Paulo". Elaboramos um questionário detalhado que foi enviado por e-mail aos 260 membros dos CTs da cidade.
É fundamental destacar que a participação foi voluntária (não obrigatória) e anônima (sem necessidade de identificação), garantindo a sinceridade das respostas. Mesmo assim, 206 conselheiros aderiram, nos dando um retrato fiel (79% de adesão) daquele momento.
Embora alguns anos tenham se passado, os dados desse diagnóstico são essenciais para provocar um debate urgente. Nossa tese é simples: sem dados, não há gestão. E os dados de 2022 mostraram que nossas suposições sobre os conselheiros estavam, em grande parte, erradas.
Mito 1: "Conselheiros têm baixa escolaridade"
A primeira suposição que a pesquisa derruba é a da baixa qualificação. O senso comum imaginava um perfil de Ensino Fundamental ou, no máximo, Médio.
O que os dados mostraram? A realidade é oposta. O Conselho Tutelar é um colegiado altamente qualificado:
• 58,2% possuíam Ensino Superior (completo ou incompleto).
• 10,1% possuíam Pós-Graduação (completa ou incompleta).
Somados, mais de 68% da classe conselheira tinha formação de nível superior.
Isso não é um detalhe. Significa que a linha de frente da proteção à infância é composta por pessoas com alta capacidade técnica, analítica e reflexiva. Temos um capital humano de enorme valor, majoritariamente feminino (70,4%) e maduro (59,3% acima de 46 anos), que precisa ser reconhecido e potencializado.
Mito 2: "Estão exaustos, entediados e desmotivados"
O segundo mito é o do conselheiro "extenuado", desiludido e que mal pode esperar para largar o mandato.
O que os dados mostraram? Novamente, os números contam uma história de comprometimento:
• Motivação: 53,9% se sentiam com motivação "Alta" ou "Muito Alta".
• Identificação: 82,5% se identificavam "Muito" ou "Completamente" com a tarefa que realizavam.
• Orgulho: 70,3% tinham "Muito" orgulho ou "Completamente" orgulho do seu CT.
• Renúncia: 55,3% afirmaram "Nunca" pensar em renunciar ao mandato.
Tradução: O conselheiro tutelar de 2022 acreditava em sua missão. Isso confirma um "sentido do trabalho". A motivação é intrínseca, ligada à missão de proteger crianças, e não a fatores externos como salário ou status.
A grande contradição: Se são qualificados e motivados, onde está o problema?
Aqui, a pesquisa revela um ponto nevrálgico. O problema não está no indivíduo, mas nas condições oferecidas a ele. Os conselheiros são movidos pela missão, mas pagam um preço altíssimo por isso.
Esse comprometimento tem um custo pessoal que o sistema impõe:
1. A sobrecarga é real:
o 56,3% afirmaram que o trabalho interfere "Bastante" ou "Extremamente" na vida pessoal.
o 58,7% disseram que a rotina familiar é "Sempre" ou "Frequentemente" alterada.
o Isso tem um nome técnico: conflito trabalho-família. A função "vaza" para a vida pessoal, tornando o descanso e a recuperação impossíveis.
2. O autocuidado é impossível:
o 67,5% responderam que dão "Nenhuma" ou "Muito Pouca" importância aos exercícios físicos.
o 75,7% deram importância "Média", "Baixa" ou "Muito Baixa" ao lazer pessoal e familiar.
o A dedicação total à causa leva à negligência de si, um padrão clássico em profissões de cuidado e ajuda.
3. O adoecimento é iminente:
o 50,6% dos conselheiros suspeitavam ter algum tipo de doença psíquica (24,8% Ansiedade, 21,4% Estresse).
o 28,2% tinham dificuldade "Bastante" ou "Extremamente" para dormir.
o Não é surpresa que especialistas em saúde do trabalhador, como a psicóloga Christina Maslach, definam esse quadro — exaustão emocional, estresse e ansiedade crônicos — como sintomas claros da Síndrome de Burnout. O conselheiro não é fraco; ele está sendo esgotado pelo sistema.
4. A estrutura é insegura:
o 53% se sentiam "Muito Pouco" ou "Pouco" seguros nas ações externas (na rua).
o 39,8% (quase 4 em 10) se sentiam "Muito Pouco" ou "Pouco" seguros dentro da própria sede do CT.
o Isso se soma aos riscos psicossociais do trabalho. A insegurança física constante (dentro e fora da sede) agrava o estresse mental e a sensação de desamparo institucional.
Esses dados revelam uma verdade inconveniente: os problemas sistêmicos (sobrecarga, insegurança) parecem ser a principal causa do adoecimento, e não uma suposta má vontade ou incapacidade generalizada. Isso, evidentemente, não isenta a responsabilidade individual. Onde houver omissão, inadequação, prevaricação ou improbidade administrativa — como o descumprimento de funções ou faltas — os conselheiros devem ser responsabilizados.
O "nó" da questão, contudo, é como efetivar essa responsabilização de forma justa. De que adianta a Prefeitura ou o Ministério Público acusarem e cobrarem, se os mesmos órgãos muitas vezes falham em prover as condições mínimas de trabalho, segurança e estrutura que esta própria pesquisa aponta?
Cria-se um ciclo vicioso onde, frequentemente, "o sujo fala do mal lavado". Para que a responsabilização seja efetiva para todas as partes, o poder público deve primeiro garantir a estrutura. Portanto, uma política pública que apenas flerta com a "criminalização" do Conselho Tutelar é míope. A pergunta provocativa à SMDHC é: não seria mais estratégico fortalecer este órgão permanente (Lei 8.069/90), dando-lhe condições, para então cobrar com rigor e imparcialidade quem falha — seja o conselheiro na ponta, ou o gestor que não proveu os meios?
O que fazer? Nossa sugestão à SMDHC
A pesquisa QVTdoCT de 2022 nos deu uma fotografia clara: temos uma força de trabalho mais qualificada e motivada do que imaginávamos, mas que está sendo esmagada pelo sistema, adoecendo mentalmente e trabalhando em condições de insegurança.
De 2022 para cá, o que mudou? A sobrecarga da pandemia foi substituída por novas demandas? A saúde mental piorou? A infraestrutura melhorou? Não sabemos. E não saber é o pior dos cenários.
Nossa hipótese é que, sem dados atualizados, não se tem um diagnóstico dos fenômenos sociais, apenas "achismos". A gestão dos Conselhos Tutelares não pode ser baseada em suposições que, como a própria pesquisa de 2022 provou, estão erradas.
É preciso reaplicar o estudo, talvez incluindo novas indagações e, como recomendado na pesquisa original, aprofundando a análise com o método DSC (Discurso do Sujeito Coletivo) para entender não só o quê, mas o porquê desses sentimentos.
Para cuidar da infância e adolescência paulistana, é imperativo, primeiro, cuidar de quem as protege. Atualizar esses dados é o primeiro e mais vital passo.
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