Violência: O grito silencioso da negligência (e o que temos a ver com isso?)

Uma provocação dos Eixos Aquarela e Diversidade em Ação: a violência institucional mata tanto quanto a bala.

Por Paulo César Ferreira de Oliveira, é sociólogo, especialista em gestão pública, psicanalista e colaborador voluntário do ICOOPS.

Quando pensamos em "violência", a imagem que surge é, quase sempre, a do crime explícito: o assalto, o homicídio, a agressão física. São tragédias inegáveis. Dados recentes da OMS e do Atlas da Violência no Brasil continuam a pintar um quadro sombrio, com centenas de milhares de vidas perdidas anualmente para a violência interpessoal e auto infligida em todo o mundo, e o Brasil figurando tragicamente entre os países com altíssimas taxas de homicídio, especialmente entre jovens e negros.

Mas focar apenas nessa violência "direta" é perigosamente míope. No Eixo Aquarela (focado na infância) e no Eixo Diversidade em Ação (voltado a grupos vulnerabilizados) do ICOOPS, lidamos diariamente com outra face da violência, mais silenciosa, porém igualmente devastadora: a violência institucional.

A provocação: A omissão do Estado também mata (e mutila vidas)

Violência não é só a força física. É também:

  • A intermediação moral que humilha e constrange.

  • O exercício injusto de poder que discrimina e oprime.

  • O cerceamento da justiça e do direito.

  • A malversação do dinheiro público que deveria ir para saúde, educação, assistência etc.

Essa é a violência institucional: a ausência, insuficiência ou inadequação das políticas públicas. É a falta da vaga na creche, o posto de saúde sem médico, o CRAS/CREAS sem estrutura, a escola que não acolhe a diversidade, a cidade hostil para pessoas com deficiência.

E aqui reside a provocação central: Será que essa violência "invisível" não é tão ou mais danosa do que a violência explícita que choca nos jornais?

Quando uma criança morre por falta de atendimento médico adequado, isso é violência. Quando um adolescente abandona a escola por falta de perspectiva ou por sofrer bullying (inclusive racista ou LGBTfóbico) sem amparo, isso é violência. Quando uma mulher vítima de agressão não encontra acolhimento na rede de proteção, isso é violência. Quando uma pessoa idosa ou com deficiência é isolada por falta de acessibilidade, isso é violência.

Essa violência institucional cria o "caldo de cultura" onde a violência interpessoal prospera. A falta de oportunidades, a negligência estatal e a ausência de redes de apoio são fatores modificáveis que têm relação direta com os níveis de criminalidade e desespero social.

Agir: A dupla responsabilidade (individual e coletiva)

A boa notícia? Como a OMS afirma, a violência é, em grande parte, evitável. A superação não é um sonho distante, é um caminho de transformação ativa, como propunha a Campanha da Fraternidade de 2018 ("Fraternidade e Superação da Violência"). Mas exige ação em duas frentes:

1. A conversão pessoal (agir no micro): A mudança começa em nós. A decisão consciente de ser uma pessoa não violenta no dia a dia. Isso implica:

  • Mudar atitudes e comportamentos: praticar a escuta, a empatia, o respeito às diferenças.

  • Questionar o consumismo: que muitas vezes alimenta a exploração e a desigualdade.

  • Valorizar a família e a comunidade: como espaços de afeto e apoio mútuo (fundamental para o Eixo Aquarela).

  • Pedir e oferecer perdão: quebrando ciclos de ressentimento.

2. A cobrança institucional (agir no macro): A mudança pessoal é vital, mas insuficiente. Precisamos agir sobre a violência institucional. Isso significa:

  • Participação política direta: Ocupar os espaços de controle social (conselhos de direitos, conferências, audiências públicas).

  • Cobrar políticas públicas efetivas: Exigir orçamento e ações concretas para a proteção da infância (Eixo Aquarela - ICOOPS), das mulheres, da população LGBTQIAPN+, das pessoas idosas, das pessoas com deficiência, dos imigrantes (Eixo Diversidade em Ação - ICOOPS).

  • Denunciar a omissão: Usar os canais como o Disque 100 não só para denunciar a violência interpessoal, mas também a falha dos serviços públicos.

  • Apoiar e fortalecer as redes: Conhecer e apoiar o trabalho dos CRAS, CREAS, Conselhos Tutelares, OSCs, Oscips, coletivos, associações etc. que atuam na ponta.

O chamado do ICOOPS:

No ICOOPS, "Cooperação que fortalece pessoas", acreditamos que a superação da violência passa por essa dupla ação. Nossos projetos buscam fortalecer indivíduos e comunidades (o micro), ao mesmo tempo em que atuamos na incidência política e no fortalecimento das redes (o macro).

A violência – seja a bala perdida, a negligência familiar ou a omissão do Estado – não é uma fatalidade. É um problema social complexo, com raízes profundas, mas que pode ser enfrentado.

Depende de nós, individual e coletivamente, escolher a cultura de paz, a empatia e, acima de tudo, a cobrança incansável por um Estado que cumpra seu dever de proteger a todos, especialmente os mais vulneráveis. A omissão também é uma forma de violência. E contra ela, precisamos agir com convicção e coragem.